segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

(des)estrume


Minha amante pálida ressoa na inconsistência que costumo ser - pai da
minha dormente adolescência e filho da enevoada infância - e configura-se naquilo
que, para mim, configura-se em
nada.
Escuto faltar os neurônios à minha amante.
Cedo-lhe um calmante dos mais alcoólicos, regido por uma divindade
provavelmente pré-colombiana, bruxa morta
refletida em alto-relevo, auto-retrato.
Pff.
- Alto lá!
        A bruxa, que jaz dopada em satisfação em algum botequim insípido, não quer mais voltar ao
espelho.
Sem a bruxa, ele não existe.
Sem o espelho, nenhuma babaquice dessas faz sentido.
E a amante, que não passa de um reflexo que em mim contive,
nunca existiu.

domingo, 6 de janeiro de 2013

Sonho que tive



Queria escrever sobre o sonho que tive,
Mas o sonho que tive,
Antes que pudesse tomar nota,
Partiu.
Onde estará aquela pomposa silhueta onírica?
Silhueta que dança perante a minha sina
E que me deixou atordoado com tamanho fascínio?
Colidiu.
Colidiu igual os seus iguais inigualáveis?
Sonhos lancinantes de deleites intragáveis em vigília?
Ou algozes de orgasmáticas agonias
Feitos de plástico e o que quer que lembre o estado de espírito
Que mostra a inexistência deste?
Me iludiu.
Me iludiu perante um tribunal de três instâncias:
Id,
Ego,
Superego
E todos os seres do universo, aglomerados numa sinfonia perpétua
Que concretizou a completude divina existente dentro de cada sonhar.
Mas já são oito e meia.
O café quente dança em minha língua.
O sonho agora não passa de uma névoa cinza.
Ah, como eu queria escrever sobre o sonho que tive!


domingo, 30 de dezembro de 2012

Sobre o vácuo


No meio que permeia o calor das horas,
Calculo o ventre que faltou ao véu
Em nuances tímidas.
A voz da menina coagula a insônia que me cerca
E cristaliza o fino ócio da minha madrugada.
Antes não restará nada, pois toda essa gentalha
Finge fingir a minha importância.
Santa seja a sagrada ignorância,
Usufruindo do amor sem jamais entendê-lo,
Julgando o infinito forte demais para concebê-lo.
Creio que não vejo em canto algum do mundo inteiro
Salvação para a minha melancolia,
Que se arrasta num suspiro egoísta,
Aprendendo a viver feito um parasita
Num ninho órfão de pai e mãe.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Barata

Cortei, lavei, fervi, temperei, cobri com farinha de rosca, fritei, sequei, banhei ao azeite e servir com arroz branco e um bom vinho do porto. Com o toque certo disfarça-se até os maiores nojos.

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Seria incorpórea?



Aí vem a torrente apática,
Vertente plasmática
Daquele lapso de existência.
Usualmente corrompida desde a essência,
Cavalgou em todos os ventres
E chicoteou todas as rainhas.
Descendente dos primatas
- Talvez até dos homeopatas -
Tem uma queda por adolescentes.
E bruta, leva a fome feito névoa,
Que cresce e decresce mais que corpórea,
Perfeita além do verbo que se prende.
Sem ousar uma ínfima interpretação,
Com a luz acesa, São João
Foi pegue sem calção,
Tentando entender onde tinha ido parar a lógica.
E a torrente,
De repente, não mais que de repente,
Virou latente
E foi-se embora.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

À tristeza



Eu espero que a tristeza
Mãe da indecência, podridão e apatia
E superior a qualquer sentimento de ódio ou similar grosseiro
Deite-me em um chão de espinhos aidéticos
Espalhe ratos gordos por entre meus dedos
Tire fotografias nas mais diversas posições
Use-me para as mais diversas perversões
Tranque-me em qualquer um de seus porões
Mas com três condições:
Faça-o com gosto
            Sem cobrança de imposto
                                   Só pare quando eu disser

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Navalha

Ao primeiro fio branco que pousou em minha barba espessa
Espero pasmo a ira de quando olhardes ao espelho
A essência do mal, qual mãe solteira e pai vadio
Virá na primavera em pele de inverno frio
Nascendo Caim, matando o que sobrara do irmão coeso