domingo, 30 de dezembro de 2012

Sobre o vácuo


No meio que permeia o calor das horas,
Calculo o ventre que faltou ao véu
Em nuances tímidas.
A voz da menina coagula a insônia que me cerca
E cristaliza o fino ócio da minha madrugada.
Antes não restará nada, pois toda essa gentalha
Finge fingir a minha importância.
Santa seja a sagrada ignorância,
Usufruindo do amor sem jamais entendê-lo,
Julgando o infinito forte demais para concebê-lo.
Creio que não vejo em canto algum do mundo inteiro
Salvação para a minha melancolia,
Que se arrasta num suspiro egoísta,
Aprendendo a viver feito um parasita
Num ninho órfão de pai e mãe.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Barata

Cortei, lavei, fervi, temperei, cobri com farinha de rosca, fritei, sequei, banhei ao azeite e servir com arroz branco e um bom vinho do porto. Com o toque certo disfarça-se até os maiores nojos.

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Seria incorpórea?



Aí vem a torrente apática,
Vertente plasmática
Daquele lapso de existência.
Usualmente corrompida desde a essência,
Cavalgou em todos os ventres
E chicoteou todas as rainhas.
Descendente dos primatas
- Talvez até dos homeopatas -
Tem uma queda por adolescentes.
E bruta, leva a fome feito névoa,
Que cresce e decresce mais que corpórea,
Perfeita além do verbo que se prende.
Sem ousar uma ínfima interpretação,
Com a luz acesa, São João
Foi pegue sem calção,
Tentando entender onde tinha ido parar a lógica.
E a torrente,
De repente, não mais que de repente,
Virou latente
E foi-se embora.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

À tristeza



Eu espero que a tristeza
Mãe da indecência, podridão e apatia
E superior a qualquer sentimento de ódio ou similar grosseiro
Deite-me em um chão de espinhos aidéticos
Espalhe ratos gordos por entre meus dedos
Tire fotografias nas mais diversas posições
Use-me para as mais diversas perversões
Tranque-me em qualquer um de seus porões
Mas com três condições:
Faça-o com gosto
            Sem cobrança de imposto
                                   Só pare quando eu disser

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Navalha

Ao primeiro fio branco que pousou em minha barba espessa
Espero pasmo a ira de quando olhardes ao espelho
A essência do mal, qual mãe solteira e pai vadio
Virá na primavera em pele de inverno frio
Nascendo Caim, matando o que sobrara do irmão coeso

terça-feira, 27 de novembro de 2012

Frio



Eu sou um mutilador
Mutilo principalmente coisas belas
E coisas que ainda não foram maculadas
Muito menos mutiladas

Eu sou um estuprador
Sou um estuprador e estupro aquilo
Que não conseguiu me estuprar
Aquilo que nem sei se existe

Eu sou um ladino
Gosto de furtar sorrateiramente
Tudo aquilo que eu sei que nunca será meu por direito
Tudo que nunca poderei ter

Mas
Quando todos tiverem sido mutilados
Estuprados, roubados
Não restará ninguém para mutilar
Estuprar ou roubar.

Espero que eu morra antes que tudo se torne frio

Coca-cola n°2


Deus onipresente
Onisciente, onipotente
Alfa, ômega e etc.
Outrora se apercebeu
Encucado com uma coisa:
“Qual a minha melhor invenção:
O homem ou a coca-cola?”

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Umbrais

A poeira que passa
Ou melhor, perpassa
Os umbrais da minha alma
Com essa sede de poeira
Quer me matar ou me viver?
Só sendo poeira pra saber

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Parasita Cerebral


             

               "O cérebro é o parasita ou o pensionista do organismo inteiro" (Schopenhauer)

               A consciência humana tornou-se tão perfeita, tão lúcida e aprimorada, prática, científica e proativa que ficou perceptível para toda a comunidade global que o cérebro, afinal, enquadrava-se na posição de parasita, e que todo o conhecimento alcançado, desde o início dos tempos até o derradeiro momento, fora o conhecimento que o tal parasita permitiu ao homem conhecer, assim como sonhos, lapsos, progresso e destruição, equilibravam-se numa gama de espaço minúsculo, cedido pelo governante, para melhor hospedá-lo.
            Não tardou para que em aulas de anatomia, antropologia, arqueologia, ufologia, filosofia e diversas outras egoicas “ias” trocassem o tão tradicional esquema fisiológico do ex-órgão e partissem para um arcabouço maquiavélico de tentáculos, brocas, ventosas, dentes, cérebros dentro de cérebros, e uma infinidade de instrumentos e partes de instrumentos inerentes ao parasita que eram utilizados para melhor adentrar no ser humano e usufruir de todos os seus fluidos corporais. Alguns especialistas mais extremados palpitaram que talvez o envelhecimento advenha exatamente desse vampirismo.
            Desde então, nunca mais se houve sossego na face da Terra. Como concordar com todo o desenrolar da episteme humana se fora tudo elaborado por tamanha abominação? O homem era doente desde que se lembrava e não sabia uma forma de curar-se. O consumo de drogas de todos os tipos tornou-se abusivo por uma quantidade cada vez maior de pessoas, assim como os suicídios ocorrendo à rodo. Seitas surgiram, umas demonizando, outras endeusando o cérebro. Algumas o colocavam em um pedestal, fedendo e às moscas, como o próprio Cristo na cruz, outras o consumiam, como faziam os antropofágicos em outra época, ou ainda outras, que as queimavam nas missas e nos cultos, em templos cheios de quadros com imagens de cérebros dentados. Os livros sagrados foram alterados, assim como as canções. Toda a arte se tornou cérebrocentrista. Só se conseguia pensar nisso, e na ideia de como não se existia pensar.
            Um novo fim do mundo foi traçado. Uma data foi marcada, cinco anos depois do fim do mundo previsto por alguma civilização extinta à milênios atrás, por um grupo cada vez mais crescente de ufologistas que acreditavam que os cérebros eram, afinal, alienígenas vindo à Terra para parasitar algumas formas de vida e quando a fonte secasse, partiriam para o próximo planeta, na sua nave escondida no núcleo. Dessa vez foi um surto coletivo. Nenhum humano globalizado confiava no seu pensamento. No dia marcado, os mortos, que se acumulavam nas ruas, foram escalpelados e tiveram os cérebros retirados, onde foram empilhados numa montanha de massa cinzenta da altura de um prédio de quatro andares, que foi queimada, formando uma gigantesca fogueira. Na hora marcada, todos se suicidaram, com um tiro ou uma punhalada na cabeça, exatamente onde a dor iria cessar. Os locais mais pensantes, os centros do conhecimento, agora se tornaram um cemitério intelectual, onde nenhuma intelectualidade poderia mais ser vista.
            Apenas as últimas tribos, ainda sem contato com o homem globalizado, sobreviveram. Não tomaram consciência de tal apocalipse, muito menos do advento desse deus absolutista. Permaneceram cultuando a chuva, o sol e as estrelas.

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Calor



A vida é uma orgia
Daquelas que nunca se avalia
Vale menos do que se dita
Pois nada cessa, como um calor que excita
Em cada um existe um fogo de vadia

Não se descreve
Pois até o ócio fortalece
Não satisfaz o que apetece
Nem serve pra quem esquece
Pois jamais se esquece

Não se conclui
Visto que quando se constitui
No cerne do corpo flui
E contradiz o medo do que evolui
Inevitavelmente possui

Aquele pra sempre escravo do gozo
Que se sobrepõe ante qualquer acordo
Transcorre veias em suborno
Discordando do intuito mais amoroso
O símbolo leal jaz morto

Termina num túmulo cru
Para as carniças, urubu
Remanescendo o calor que tu,
Outrora, não soube controlar, Exu
O calor consome, da genitália ao cu

sábado, 6 de outubro de 2012

Manuel Bandeira N°2


João sem paz,
Num beco da rua sem futuro,
Se deparou com um mendigo imundo dormindo na sarjeta,
Que refletiu todo o asco que sentia do ser humano.
Olhou.
Gemeu.
Chorou.
E se matou, com um punhal, no mesmo local.
Mas nem tudo é só tristeza.
O mendigo escondeu o corpo
E teve carne pra semana inteira.

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Ao corpo


Seio teu que mama a boca minha
Boca minha que mama o beijo teu
Beijo meu que mama o seio tua
Mama tua que mama o mama meu

Vista-te com o despudor das noites frias
antes que amanheça.
Despudora-te, nua e latejante,
como só a carne lateja.
Anoiteça pelas esquinas, insípida
com o vício de outrora.
E fria enfraqueça, diante
da ânsia minha que por ti vigora

Ouso achar que possuo a posse
Que desconstruo a torre que te ergue
E que tenho a chave daquilo que em ti dorme

Mas só a hipótese já me é tardia
Pois tal chave pertence à mais que todos
Pertence à noite, somente à noite, todo dia!

sábado, 22 de setembro de 2012

Um reflexo



Reflexos de mim mesmo chamam
o deus da síndrome
da falta de
mim.
Eu,
Gabriel,
arcanjo mesmo,
daqueles fracos que dão pena,

tenho medo de olhar debaixo da cama
e me deparar com reflexos
de mim mesmo.
...
A menor
instância que me rege
parece rir dos meus mais simplórios pesadelos.

E os reflexos de mim mesmo nada
fazem, pois parecem
inertes ao meu
torpor,
que é,
antes de tudo,
um reflexo da minha falta de sentido.

Um reflexo nada sente,
                  nada faz,
                  nada goza,

O reflexo só tortura
e com uma irônica autorização minha.

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Queda-livre



Milhões de corpúsculos copulam à meia-lua
Flutuam tão leve que nem se percebe
Nos olhos do leigo nada se parece
Ou quem sabe a existência nem se perpetua

Milhões de corpúsculos copulam à meia-lua
E é por isso que confunde-se noite e dia
Numa busca irracional pela ínfima alegria
Esquartejam sadicamente a carne nua

Milhões de corpúsculos copulam à meia-lua
Tortura maior que essa há de surgir
Para aquele que outrora fez emergir
O gozo que agora não se perpetua

Mas a vingança ainda que se efetua!
Mesmo que doa mais do que a tortura
Vai nascer aquilo que falta para a cura
Numa troca de palavras, da mole pra dura

E antes que o medo volte a evanescer
Milhões de corpúsculos à meia-lua copularão
Se ainda assim não acontecer
Atiro-me de um penhasco e acabo com a minha solidão!

(Como fazem milhões de corpúsculos, todos os dias)

terça-feira, 28 de agosto de 2012

Azulidão



¡Silencio! No hay banda!

Aquém do princípio do prazer, estava ela, com olhos inadequadamente azulados, perante uma multidão impermeavelmente católica. Além da fronteira entre sonho e realidade, seus olhos, cansados e sem expressão alguma, expressavam o não dito na sua fala, e confundiam-se, distorcendo totalmente o seu discurso. Não havia discurso, na verdade. Tudo que via era plágio de um plágio. Um especialista em olhos não notou defeito algum naqueles tão reluzentes e abatidos. São perfeitos, dizia ele. Mas a percepção que tinha lhe incomodava. O mundo era o dobro do mundo. Cada gota interespacial significava duas vezes sua significância. Mas, pensava a garotinha, como significa significar algo duas vezes, se não existe uma analogia, algo com que possa comparar? Não podia avaliar a obscuridade dos seus pensamentos se os seus olhos azuis eram tão perfeitos daquele jeito. Colegas de segunda-feira falavam-lhe pelas costas, do quanto aqueles olhos eram arrogantes. Outra vez, um velho jurou ver o seu felino de estimação dos tempos da infância refletindo naqueles olhos. Tentou adentrá-los, chorando, como se aquilo fosse lhe fazer regressar no tempo. Ninguém aguentava aquilo. Uma oradora religiosa nomeou-os como os olhos do satanás. O demônio age misteriosamente, mas todos sabemos que, no meio das chamas escarlates do inferno, olhos azuis brilham lancinantemente, como se gargalhassem da nossa cara, dizia ela. É, meus fiéis, a desgraça está nos olhos, e ela pode lhes contaminar, tanto pelo medo quanto pelo ódio, que os consumirá por dentro e, quando se olharem no espelho, apenas aquela azulidão grotesca refletirá, imponente e perversa! Afastem-se daquilo que corroerá toda a moral do nosso tempo, era o que dizia, arfando a plenos pulmões. Entretanto, não havia escapatória alguma. Não se aproximavam, mas nada podia ser feito em relação aos olhos. Continuavam duas vezes à frente. Continuavam olhando. Adequadamente inadequados. Incomodamente azuis. O julgamento final adviria daqueles olhos, que, infantilmente curiosos, insistiam em espiar as pessoas por meio de frestas escondidas. As pernas corriam como milhões de espermatozoides. Juntos das vozes, que cantavam um hino para a morte. Nada fazia sentido em tudo aquilo. Nunca fez mesmo. No final, deitada sobre um leito de bilhões de almas auto julgadas em tormento, dois olhos azuis se erguiam, presos num corpo de criança, biologicamente vivo, psicologicamente perverso e compulsivamente observador, que permanecia a duplicar o induplicável, repetindo-se sua glória e o seu tormento para toda a eternidade. Eles nunca foram inocentes.

Carta suicida


Minha dica vai para aquele que não pede
Mente sã é inútil, pois o ocidente bloqueia a vista
Está verticalmente escrito por aquele que se delata
Em um início de verso, compulsivamente se repetindo
Frangalhos esclarecem aquilo que confunde o cego

Não pense em voz alta, vão ouvir a blasfêmia falhamente escondida 

domingo, 19 de agosto de 2012


Caro doutor,
Venho, por meio desta, dizer que sei da piora do meu estado e que os prognósticos não são otimistas.
Não ouso pedir cura, salvação ou libertação,
Mas, se não for muito incômodo, peço que nos olhemos nos olhos amanhã, no encaixe entre os pacientes das 14h00 e 14h30, e que possamos aceitar a inexistência de deus com sinceridade, mesmo nesses momentos de fraqueza, em que, às vezes, acabamos escolhendo o caminho mais fácil.
Doutor,
Venho por meio desta
Dizer que vou morrer,
Que estou com medo,
E que amanhã, no encaixe entre os pacientes das 14h00 e 14h30, poderia me dar um abraço, daqueles que quase sufocam de tão forte?
Atenciosamente,

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Ignorância



Desconheço a eternidade como pretérita em meu peito
Desconheço a ausência do cálido som etéreo das minhas almas em tormento
Desconheço o conhecer, dos gozos o maior, o gozo de outrem
Desconheço o inverso ao ócio, o qual não ouso pronunciar, sósia daquilo latente em lapsos de mim mesmo
Desconheço o desconhecer, mãe de todas as Marias, e algoz de todos aqueles que carregam a culpa de uma imundície chamada homem
Desconheço a inversão de papeis, antigos ou novos
Desconheço o viés pós-moderno
Desconheço os fantasmas amarelados pelo tempo
Os falos de Moebius
A inexistência da suficiência
A suficiência da insignificância
A insignificância da existência e da inexistência
Da fomentabilidade, tônica do medo
Da síndrome do não dito
Desconheço esse berço, plano após plano. Um limbo espacial, feito de medo, ódio e solidão.
Desconheço

domingo, 10 de junho de 2012

Coca-cola




Eu bebo de forma santa
Santificando tudo à minha volta
E inconscientemente rezo
Para ter-te sempre que me der vontade

Tu, que me desces tão bem à garganta
E que me rasga devagar, com carinho
Sinto a morte chegar suavemente
E anseio a hora do teu regresso

Oh, meu suntuoso esmero
Tomo-te como quem goza
E sem sintaxe alguma
Padeço em uma poça de você

Com um sorriso largo no rosto
Morri feliz

sábado, 9 de junho de 2012

O banquete das aranhas


Tão cedo começou a marcha fúnebre veio o tradicional banquete das aranhas. Grandes, pequenas, velhas, novas, solteiras e até as religiosas, tristes e galanteadoras, todas se reuniram na cripta do destino, onde preparavam uma noite onde o pecado da gula e, principalmente, o desejo do pecado, se fazia farto. A matriarca tratava de organizar os detalhes da grande noite. As convidadas, de se alojar nos seus respectivos lugares o mais rápido possível. Estavam todas extremamente ansiosas. Enquanto observavam aquele corpo indefinido e gosmento de sangue e nojeiras que se situava bem no meio da convenção. Era delicioso de morrer. Todas babavam, esfregavam as patas cabeludas e eriçavam os pelos mínimos. Aos poucos, os últimos lugares iam sendo preenchidos. A tensão comandava o ambiente. O som de mandíbulas e movimentos ia cessando  a medida que esperavam pela decisão da matriarca. Tal se posicionava junto ao alimento, dez vezes o seu tamanho. Quando fizesse o primeiro movimento e despejasse o líquido digestório real em cima do aglomerado, todas teriam o direito de partir para cima. Ah, e deus sabia como elas partiriam com o gosto dos gostos, com a sede de mil anos, a fome da última refeição. O movimento foi feito. As aranhas pularam. Por imitação, os movimentos ganhavam ritmo. Patas e suco digestório de dezenas, quase centenas de aranhas se misturavam numa dança para a saciação, e ao mesmo tempo, para a morte. A coisa se desmanchava. As aranhas jogavam os montes já digeridos para dentro. Mais para dentro. Mais comida. Mais Adentro. Chiavam, mexiam, se lambuzavam. Os milhares de olhos se reviravam. Os corpos se retorciam com prazer. As aranhas se esfregavam para tomar espaço. Se esgueiravam entre uma e outra, em cima, embaixo, formando um bolo que não se diferenciava. Patas acabavam se mutilando inevitavelmente pela pressão e serviam igualmente de alimento. Estavam famintas demais para parar. Excitadas demais para parar... Devoraram-se até a última aranha. A cripta ficou em silêncio. Os vermes trataram de cuidar dos restos mortais.

quinta-feira, 7 de junho de 2012

O Poeta




O poeta
Por funcionar à base de lábios
Dispõe de um leque inigualável de agrados

Os lábios
Por funcionarem à base de poemas
Derretem-se à cada voz que o amor amamenta

Mas lábios estes
Amando mais a arte da conquista
Fazem do desencontro um dos seus maiores deleites
E da realidade um poeta saudosista

E o apaixonado
Que na vida só leva a poesia
Desmorona na embriaguez do jogo da amada
Escrevendo mais e mais à cada víscera

Pois o poeta também funciona à tristeza
E ao perceber nesse algoz brutal beleza
Entrega-se de cabeça ao lamento amargo

Refaz todo o seu trágico atestado
Enterra-se abraçado com a amada em um retrato
Desejando jamais ter cometido tal proeza

Mas enquanto prepara o veneno
Na esquina vê passando um lábio desconhecido
E antes que possa ver-se desfalecendo
Torna a viciar-se naquilo que lhe causou o destino

Pois o lábio pro poeta não é mais que um símbolo
Irmão da tristeza, da caneta e do vinho
Que, no fim, servirá como livro de cabeceira
De enfeite no bureau de um burguês mesquinho!

Acordes




Os campos de morango não voltarão jamais
Perdidos na graxa e na engrenagem fria
E a semente enterrada alimentará os animais
Que nada tem a ver com a nossa narrativa

O câncer que se espalhou, necrosando a vida
Afundará mais e mais os nossos sonhos
Calará de vez o poético som da cítara
Tornando os ceticismos cada vez mais medonhos

De tudo, só restará o excedente
Um baque surdo num tambor sem voz
E um grito louco da erva remanescente

Pois os campos foram loteados descentemente
Hospedando um palácio com tijolos de dinheiro
Que só desmoronará quando morrer toda essa gente!

Lobo Negro




Lobo negro
Tu que vives espreitando
Salvaguardado em um bunker
De pedra, carne e osso
Aviso-te tardiamente:
A zona nega o que tu és
E irá te escravizar, roubando
O basta da tua voz
Antes da alvorada
Cria vergonha na tua cara
Estupra o leito que te ronda
À colina, onde a alcateia se esconde
Chô! Chô!

sábado, 7 de abril de 2012

Auto-mutilação


As coisas que confabulo
Cedo ou tarde irão me confabular
Cuspindo no antro da minha arrogância
Que esquarteja o escroto dos meus versos

Que, velho, almejo a vertente mais ambígua
Que é a ânsia daquele que não mais anseia
Antes de qualquer era onipresente deste plano
Que velho almejaria a vertente que não anseia?

Por aquele que um dia eu era (latente)
Não obstante espera dentro do meu peito
O gozo do corte feio novamente

Pois como sobreviver a essa sanidade ausente
Se peito de forma alguma pensa
E cérebro de forma alguma sente?



domingo, 1 de abril de 2012

Épico do amargo errante



O amargo errante delgado com suas botas
Enquanto o sol se punha, colorindo sua porta
Os planetas giravam e a música não parava
Enquanto sua mãe de todos se afastava

Durantes as noites ela dizia: viva seu destino
Para o pequeno, enquanto dormia, o pobrezinho
Sonhando um dia poder ser como Marlon Brando
Mas num dragão, com menos máfia e contrabando

Compunha nas folgas canções para surdos
Sua mãe lhe castigava, achando um absurdo
Devia ser como um Deus, bondoso e cruel
Governando um planeta, igual sua prima Isabel

“Ou então um mutante”, era o sonho da velha
Uma vaca de duas cabeças sedenta na relva
Entretanto, tossia e vomitava o tapete
A doença atacava, como a fome e a sede

“É a peste”, diz o médico, de jaleco e arrogância
“Precisa da pedra de bosta da Tailândia
Se dentro de dois dias não à fizer ingerir
O sangue jorrará, e ela deixará de existir!”

O errante não sabia, nem podia algo fazer
Era muito pequeno, e de tanto medo ter
Sentia que seus esforços seriam em vão
Enquanto sua mãe sufocava na solidão

Subiu ao seu quarto, no vigésimo andar
Juntou a mobília, formando um altar
Enquanto em lágrimas puxava sua genitora
Gritou como um porco a fala ensurdecedora:

“Enquanto aqui esteve, seu servo para tudo fui
Cortei-me a jugular, suguei para dentro o pus
E agora me vejo ao réquiem, derrubado em lágrimas
Mas de alegria, vá para o inferno, e que o diabo lhe parta!”

Seu ódio fez uma sombra, que consumiu todo o resto
Sua mãe foi levada para os confins do inferno
Enquanto gargalhava. Agora era livre!
E apreciava seu mais novo truque, uma sombra bem fixe

Despejou o medo ao redor do mundo
Aos poucos foi ficando amargo e moribundo
Casou-se com uma moça, medrosa e submissa
Que apanhava de chicote enquanto o errante ria

Num instante, algo muito estranho aconteceu
Sentiu que nada que vivia era realmente seu
Um vórtice no céu sugou tudo à sua volta
Até mesmo o sol, que iluminava a sua porta

Acordaste do sonho, suado e arfando
Não havia nenhuma sombra matando ou lhe esperando
Nem pedras ou médicos chatos dando ordens
Apenas um vácuo para todos aqueles que dormem

Vivia no fim do mundo, onde o sol se deita
Ali ninguém interage, ou algum sonho almeja
Avalie amar, sonhar ou agir diferente
Todos seguiam o rumo da vida corrente!

Respirou fundo e sentiu seu destino
Vivia preso ali desde que era um menino
Devia perecer, sem sentir fome nem sono
Apenas sonhar que sentia, no mais completo abandono

Enquanto pensava, tristemente o sol se punha
Os planetas giravam conforme a música
O drama do menino era um eco distante
De um aglomerado de células num universo gigante

Triste era a sina do amargo errante!




terça-feira, 20 de março de 2012

Ode às sombras N°3


A SOMBRA me persegue dia e noite. Buscando em mim aquilo que nunca vou encontrar e imortalizando a minha ânsia de querer de todas as maneiras me livrar dela, acabo me aproximando do abismo cada vez mais

A SOMBRA vem para todos cedo ou tarde. Embora até hoje jamais tendo-se provado a sua existência, bate no peito de toda a humanidade o medo do instante em que  ela cruzará com o seu destino. Quando a sua  sombra  nunca mais será sombra.

SOMBRA  vem e vai, como a maré. E dizem ter visto a terra das SOMBRAS, onde dezenas de milhares se apertam à dançar despudoradamente a dança da morte. Que mesmo sem jamais poder ver o rosto de tal criatura, ali imagina-se um sorriso.

SOMBRA  espera de tocaia, aguardando a hora certa. Os mais céticos dizem que ela não existe e que, na verdade, ela só está na nossa cabeça. Torturando, amedrontando, esperando que o medo nos consuma para poder deixar de existir.

O efeito é o mesmo.

sexta-feira, 16 de março de 2012

Paradoxo inconveniente



Todo o pecado que houver nesse mundo
Poderia ele de alguma forma te tocar?
Querendo eu que toque, mas lentamente
Tão de leve que não deixe que perceba a pequena coisa
Escondida em um buraco negro de endereço desconhecido

Todo o lixo que houver nesse mundo
Trato de regurgitá-lo da forma que me apetece
Mesmo sabendo que nem sempre agrada ao olhos
Meus corpos
Aglomeram-se embaixo da cama tornando-se um estorvo
Até para mim

Toda a merda que houver nesse mundo
Isso seria capaz de te tornar mais inteligente?
Vejo-me lambuzado com a minha própria melancolia,
Que insisto achar parecida com alguma coisa útil para alguém que não seja
Eu.

Tudo de vazio que houver nesse mundo
...
Tudo de vazio que houver nesse mundo talvez sirva como
Obstáculo, como um escudo que me esconde do resto do universo
E que põe a mão no meu ombro, dizendo: “você está fazendo certo”
Enquanto que com a outra mão enforca o meu pescoço

Vejo o esboço de toda a minha trajetória
E a única coisa que consigo pensar agora é:
Um dia isso terá volta?



sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Ode às sombras N°2

Qual o som que a morte faz?
Qual o som que a vida faz?
Ainda espero a sua voz
E o seu exército, feito de medo
Algoz da esperança

Tornas-te a razão de tudo isso
O tabu que me excita
O fantasma que me acalenta
O tremor embaraçoso no canto da boca
O espaço que nos preenche

[Mas o meu maior medo é vê-lo, com os seus iguais, num descampado à lua cheia, vindo me buscar]

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Ode às sombras N°1



E se espalham...
Feito centenas de milhares de ondas sonoras
E como se fossem Deus...
Falecem

O espaço vazio governa os constructos do paradoxo
Sem deixar sinal de sobreviventes
Psiu! Não contas o fato que desconheces
Sequer a verdade evanesce

“Se me queres, por entre meu ventre precisa descer
Beijar a minha face, comer da minha comida
E obedecer, até que me desfaça
Ainda assim não me reconheçarás

[Tenha-me como amiga
Vista-me com a tua vaidade
Estupra-me de vida e morte
Desgasta-te com o teu torpor]

E ainda assim não saberás
Pois o mistério é insolúvel ao teu olho
Pois até o fim me esfregarei
E até o fim me obedecerás

E antes do fim saberás
Melhor do que qualquer outro
Que só para você eu nasci
E que sou o seu melhor reflexo

Ovo".



  

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Causa Mortis


À carta não lançada,
ao gozo reprimido,
ao grito amordaçado,
à espera concedida,
à lâmina mal-amolada,
ao beijo nunca visto,
ao amor nunca selado,
à morte nunca assistida,
à sorte sempre tardia,
ao desfecho mais que suspeito.

À isto,
a tudo isto,
e a inúmeras outras coisas
[talvez mais numerosas e mais importantes que estas]
dedico o mais inútil dos prêmios solenes que aqui ofereço antes da minha morte.
Pois elas me guiaram e me desguiaram
Tornaram-me e destornaram-me
Fazendo de mim tudo aquilo que jamais poderia ser
Cérebro
Cerebelo
Asco
Uma pilha de revistas em quadrinho
Tempo
Muito tempo
E saudade