Ao primeiro fio branco que pousou em minha barba espessa
Espero pasmo a ira de quando olhardes ao espelho
A essência do mal, qual mãe solteira e pai vadio
Virá na primavera em pele de inverno frio
Nascendo Caim, matando o que sobrara do irmão coeso
terça-feira, 4 de dezembro de 2012
terça-feira, 27 de novembro de 2012
Frio
Eu sou um mutilador
Mutilo principalmente
coisas belas
E coisas que ainda não
foram maculadas
Muito menos mutiladas
Eu sou um estuprador
Sou um estuprador e
estupro aquilo
Que não conseguiu me
estuprar
Aquilo que nem sei se
existe
Eu sou um ladino
Gosto de furtar
sorrateiramente
Tudo aquilo que eu sei
que nunca será meu por direito
Tudo que nunca poderei
ter
Mas
Quando todos tiverem
sido mutilados
Estuprados, roubados
Não restará ninguém
para mutilar
Estuprar ou roubar.
Espero
que eu morra antes que tudo se torne frio
Coca-cola n°2
Deus onipresente
Onisciente, onipotente
Alfa, ômega e etc.
Outrora se apercebeu
Encucado com uma coisa:
“Qual a minha melhor
invenção:
O homem ou a coca-cola?”
segunda-feira, 26 de novembro de 2012
Umbrais
A poeira que passa
Ou melhor, perpassa
Os umbrais da minha alma
Com essa sede de poeira
Quer me matar ou me viver?
Quer me matar ou me viver?
Só sendo poeira pra saber
segunda-feira, 5 de novembro de 2012
Parasita Cerebral
"O cérebro é o parasita ou o pensionista do organismo inteiro" (Schopenhauer)
A consciência humana tornou-se tão perfeita, tão lúcida e aprimorada, prática, científica e proativa que ficou perceptível para toda a comunidade global que o cérebro, afinal, enquadrava-se na posição de parasita, e que todo o conhecimento alcançado, desde o início dos tempos até o derradeiro momento, fora o conhecimento que o tal parasita permitiu ao homem conhecer, assim como sonhos, lapsos, progresso e destruição, equilibravam-se numa gama de espaço minúsculo, cedido pelo governante, para melhor hospedá-lo.
A consciência humana tornou-se tão perfeita, tão lúcida e aprimorada, prática, científica e proativa que ficou perceptível para toda a comunidade global que o cérebro, afinal, enquadrava-se na posição de parasita, e que todo o conhecimento alcançado, desde o início dos tempos até o derradeiro momento, fora o conhecimento que o tal parasita permitiu ao homem conhecer, assim como sonhos, lapsos, progresso e destruição, equilibravam-se numa gama de espaço minúsculo, cedido pelo governante, para melhor hospedá-lo.
Não tardou para que em aulas de
anatomia, antropologia, arqueologia, ufologia, filosofia e diversas outras
egoicas “ias” trocassem o tão tradicional esquema fisiológico do ex-órgão e
partissem para um arcabouço maquiavélico de tentáculos, brocas, ventosas,
dentes, cérebros dentro de cérebros, e uma infinidade de instrumentos e partes
de instrumentos inerentes ao parasita que eram utilizados para melhor adentrar
no ser humano e usufruir de todos os seus fluidos corporais. Alguns
especialistas mais extremados palpitaram que talvez o envelhecimento advenha
exatamente desse vampirismo.
Desde então, nunca mais se houve
sossego na face da Terra. Como concordar com todo o desenrolar da episteme
humana se fora tudo elaborado por tamanha abominação? O homem era doente desde
que se lembrava e não sabia uma forma de curar-se. O consumo de drogas de todos
os tipos tornou-se abusivo por uma quantidade cada vez maior de pessoas, assim
como os suicídios ocorrendo à rodo. Seitas surgiram, umas demonizando, outras endeusando
o cérebro. Algumas o colocavam em um pedestal, fedendo e às moscas, como o
próprio Cristo na cruz, outras o consumiam, como faziam os antropofágicos em
outra época, ou ainda outras, que as queimavam nas missas e nos cultos, em
templos cheios de quadros com imagens de cérebros dentados. Os livros sagrados
foram alterados, assim como as canções. Toda a arte se tornou cérebrocentrista.
Só se conseguia pensar nisso, e na ideia de como não se existia pensar.
Um novo fim do mundo foi traçado.
Uma data foi marcada, cinco anos depois do fim do mundo previsto por alguma
civilização extinta à milênios atrás, por um grupo cada vez mais crescente de
ufologistas que acreditavam que os cérebros eram, afinal, alienígenas vindo à
Terra para parasitar algumas formas de vida e quando a fonte secasse, partiriam
para o próximo planeta, na sua nave escondida no núcleo. Dessa vez foi um surto
coletivo. Nenhum humano globalizado confiava no seu pensamento. No dia marcado,
os mortos, que se acumulavam nas ruas, foram escalpelados e tiveram os cérebros
retirados, onde foram empilhados numa montanha de massa cinzenta da altura de
um prédio de quatro andares, que foi queimada, formando uma gigantesca
fogueira. Na hora marcada, todos se suicidaram, com um tiro ou uma punhalada na
cabeça, exatamente onde a dor iria cessar. Os locais mais pensantes, os centros
do conhecimento, agora se tornaram um cemitério intelectual, onde nenhuma
intelectualidade poderia mais ser vista.
Apenas as últimas tribos, ainda sem
contato com o homem globalizado, sobreviveram. Não tomaram consciência de tal
apocalipse, muito menos do advento desse deus absolutista. Permaneceram cultuando
a chuva, o sol e as estrelas.
quarta-feira, 10 de outubro de 2012
Calor
A vida é uma orgia
Daquelas que nunca se
avalia
Vale menos do que se
dita
Pois nada cessa, como
um calor que excita
Em cada um existe um fogo de vadia
Não se descreve
Pois até o ócio fortalece
Não satisfaz o que
apetece
Nem serve pra quem
esquece
Pois jamais se esquece
Não se conclui
Visto que quando se
constitui
No cerne do corpo flui
E contradiz o medo do
que evolui
Inevitavelmente possui
Aquele pra sempre
escravo do gozo
Que se sobrepõe ante
qualquer acordo
Transcorre veias em
suborno
Discordando do intuito
mais amoroso
O símbolo leal jaz
morto
Termina num túmulo cru
Para as carniças, urubu
Remanescendo o calor
que tu,
Outrora, não soube
controlar, Exu
O calor consome, da
genitália ao cu
sábado, 6 de outubro de 2012
Manuel Bandeira N°2
João sem paz,
Num beco da rua sem futuro,
Se deparou com um mendigo imundo dormindo na sarjeta,
Que refletiu todo o asco que sentia do ser humano.
Olhou.
Gemeu.
Chorou.
E se matou, com um punhal, no mesmo local.
Mas nem tudo é só tristeza.
O mendigo escondeu o corpo
E teve carne pra semana inteira.
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