terça-feira, 20 de março de 2012

Ode às sombras N°3


A SOMBRA me persegue dia e noite. Buscando em mim aquilo que nunca vou encontrar e imortalizando a minha ânsia de querer de todas as maneiras me livrar dela, acabo me aproximando do abismo cada vez mais

A SOMBRA vem para todos cedo ou tarde. Embora até hoje jamais tendo-se provado a sua existência, bate no peito de toda a humanidade o medo do instante em que  ela cruzará com o seu destino. Quando a sua  sombra  nunca mais será sombra.

A  SOMBRA  vem e vai, como a maré. E dizem ter visto a terra das SOMBRAS, onde dezenas de milhares se apertam à dançar despudoradamente a dança da morte. Que mesmo sem jamais poder ver o rosto de tal criatura, ali imagina-se um sorriso.

A  SOMBRA  espera de tocaia, aguardando a hora certa. Os mais céticos dizem que ela não existe e que, na verdade, ela só está na nossa cabeça. Torturando, amedrontando, esperando que o medo nos consuma para poder deixar de existir.

O efeito é o mesmo.

sexta-feira, 16 de março de 2012

Paradoxo inconveniente



Todo o pecado que houver nesse mundo
Poderia ele de alguma forma te tocar?
Querendo eu que toque, mas lentamente
Tão de leve que não deixe que perceba a pequena coisa
Escondida em um buraco negro de endereço desconhecido

Todo o lixo que houver nesse mundo
Trato de regurgitá-lo da forma que me apetece
Mesmo sabendo que nem sempre agrada ao olhos
Meus corpos
Aglomeram-se embaixo da cama tornando-se um estorvo
Até para mim

Toda a merda que houver nesse mundo
Isso seria capaz de te tornar mais inteligente?
Vejo-me lambuzado com a minha própria melancolia,
Que insisto achar parecida com alguma coisa útil para alguém que não seja
Eu.

Tudo de vazio que houver nesse mundo
...
Tudo de vazio que houver nesse mundo talvez sirva como
Obstáculo, como um escudo que me esconde do resto do universo
E que põe a mão no meu ombro, dizendo: “você está fazendo certo”
Enquanto que com a outra mão enforca o meu pescoço

Vejo o esboço de toda a minha trajetória
E a única coisa que consigo pensar agora é:
Um dia isso terá volta?



sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Ode às sombras N°2

Qual o som que a morte faz?
Qual o som que a vida faz?
Ainda espero a sua voz
E o seu exército, feito de medo
Algoz da esperança

Tornas-te a razão de tudo isso
O tabu que me excita
O fantasma que me acalenta
O tremor embaraçoso no canto da boca
O espaço que nos preenche

[Mas o meu maior medo é vê-lo, com os seus iguais, num descampado à lua cheia, vindo me buscar]

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Ode às sombras N°1



E se espalham...
Feito centenas de milhares de ondas sonoras
E como se fossem Deus...
Falecem

O espaço vazio governa os constructos do paradoxo
Sem deixar sinal de sobreviventes
Psiu! Não contas o fato que desconheces
Sequer a verdade evanesce

“Se me queres, por entre meu ventre precisa descer
Beijar a minha face, comer da minha comida
E obedecer, até que me desfaça
Ainda assim não me reconheçarás

[Tenha-me como amiga
Vista-me com a tua vaidade
Estupra-me de vida e morte
Desgasta-te com o teu torpor]

E ainda assim não saberás
Pois o mistério é insolúvel ao teu olho
Pois até o fim me esfregarei
E até o fim me obedecerás

E antes do fim saberás
Melhor do que qualquer outro
Que só para você eu nasci
E que sou o seu melhor reflexo

Ovo".



  

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Causa Mortis


À carta não lançada,
ao gozo reprimido,
ao grito amordaçado,
à espera concedida,
à lâmina mal-amolada,
ao beijo nunca visto,
ao amor nunca selado,
à morte nunca assistida,
à sorte sempre tardia,
ao desfecho mais que suspeito.

À isto,
a tudo isto,
e a inúmeras outras coisas
[talvez mais numerosas e mais importantes que estas]
dedico o mais inútil dos prêmios solenes que aqui ofereço antes da minha morte.
Pois elas me guiaram e me desguiaram
Tornaram-me e destornaram-me
Fazendo de mim tudo aquilo que jamais poderia ser
Cérebro
Cerebelo
Asco
Uma pilha de revistas em quadrinho
Tempo
Muito tempo
E saudade

sábado, 28 de janeiro de 2012

Anjo do Inferno



Durante toda a minha minúscula vida tentei ser tud
o. Controlar tudo. Me enquadrar em tudo. Respeita
r a vontade de todos e me sobressair perante qualqu
er argumento, desrespeitando os outros. Hoje penso
que só um anjo do inferno pode ser tudo.  Deter par
a si os direitos do bem e do mal. Tocar fogo no espí
rito santo e ainda assim se sair bento.
Mas
Esse tipo de anjo eu jamais irei ser. Pois só um anjo
do inferno pode se tornar um anjo do inferno.
E eu...
Quem sou eu?
Apenas um moço querendo chamar atenção, com me
do de chamar atenção demais. Fraco demais. Indecis
o demais. Apaixonado demais. Hipócrita demais. Cri
ança demais. Descrente de anjos do inferno.
Poderá haver um sentido para tudo isso?
...
Ontem sonhei com um anjo do inferno...
E ele era feliz

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Eu sou dor
Embora me queira vivo
Surge outrora o vermelho-errante
Que me levará, perante o seu suspiro
À quebra surda do amargo instante

Que dentro da mortalha esquenta
A virgem perto dos quarenta
Por dentro, se faz sedenta
Por fora, eu já nem sei
“Eu já te amei”

Hoje, nada mais me faz falta
E vai acabar como começou
Antes que se perceba o ócio
Regurgitando no próprio fluxo
Refluxo