E
foi justamente quando a humanidade mais crescia e evoluía, crente de toda a pompa
necessária para a autossuficiência, autoerotismo, auto o caralho de asas, etc.,
etc., etc., que algum maluco diagnosticado bossalmente com psicopatia ou o que
quer que valha assassinou sete pessoas em uma mercearia de esquina da mais
baixa qualidade atrás de coca-cola. Preso em flagrante, declamou uma ode ao
produto, que retumbou como uma confirmação da supremacia da privatização da
organização da forma da autossuficiência da autoindulgência da automalemolência
da... Dignidade aderida da forma mais baixa possível, o homem gerou
controvérsias. Escreveu um livro. Pousou nu. Plantou uma árvore. Foi proclamado
o rei do submundo. O mundo que era sub, sub que significa embaixo. O mundo que
era baixo, mais baixo que qualquer mundo individual. Hare krishna, dinheiro,
fama, poder, sexo, sexo, sexo... Se matou, como todo ídolo pop, vítima do
próprio monstro que criou, cujo não pôde mais escapar. Babacas em todo o mundo
trataram de proclamá-lo o homem mais importante da história. Seu elixir sagrado
refletia neles mesmos. Pela primeira vez, sem máscaras, sem censuras, um câncer
osteoporótico os abraçava feito mãe. E isso dava um prazer tão grande que o
grito de gozo podia chegar aos céus, captado via ondas de alguma partícula
ainda não interpretada pelo homem por alguma raça que já superou a bebida do diabo e
que vive em mais perfeita harmonia. Se fosse feito um retrato, podia-se ver um
bilhão de rostos sorridentes, com dentes enormes e careados, quase rasgando os
cantos da boca, numa ereção constante e num gemido uníssono, coral interestelar
que comandava tudo o que restava da magnificência terrestre. Uma chuva fina caía,
feita de coca-cola, monóxido de carbono e sêmen, provavelmente do Marilyn
Manson, que já tinha tatuado na virilha o rosto do assassino. Caía mansinho,
molhando uma família de esquilos, que se abrigaram em velhos carvalhos até que
pudessem sair e ver o sol nascer reluzente.
segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013
terça-feira, 29 de janeiro de 2013
Concretismo
Chega de concretismos!
De concreta já basta a
vida!
De concreta já basta a morte!
De concreta já basta a morte!
Já basta a ferida
cutucada por aquela unha deixada sempre grande!
Já basta a ideia que
nunca vai ser apreendida como se quer!
Já basta o medo, que
nos assombra ao passo das horas!
Já basta o segredo dos
segredos, aquilo que nunca foi segredo
e que sempre estará no âmago de qualquer
coisa!
Já basta o verbo, parceiro
telepático que me estrangula à dentadas!
Já basta o universo,
pai e mãe de um aborto racional chamado:
Chega!
Farto é pouco para
definir o que quer que seja.
Morreu o assunto.
A noite mal começou e
hoje eu quero me iludir até a tampa.
Garça
Então, diante
dos grandes jogos
rudimentares e anárquicos,
a garça bran
ca
do norte
começou a
se mover
poderosa
mente
na
velocidade
da luz. De
vagar, gra
ciosamente e ondulante, saudou tudo
que
admirava, dando um surpreendente
grito ardente e
voando livremente em direção
ao horizonte. Ao que
parece, ou se
ouviu
dizer, nunca mais voltou.
Tão rápido foi embora,
saudades
deixou.
Que
sau
da
de!
terça-feira, 22 de janeiro de 2013
O que seria?
Acordei de madrugada sentindo uma sede infernal, como de
costume. Fazia isso todas as noites, mais ou menos no mesmo horário (que afinal
eu sempre esquecia exatamente). Levantei. O sono me impediu de resvalar naquilo
que possa se chamar inteligência e fez com que não me lembrasse de acender
nenhuma luz. Não foi difícil chegar à cozinha. Fazia aquele trajeto de olhos
fechados quase todos os dias. A única diferença é que, ao chegar, tinha um
vulto gigantesco parado na minha frente. Era compulsivamente grande, com a
cabeça encostada no teto e os pés pareciam esticados além do chão, como se
fosse mole e não fosse o seu final que estivesse apoiando-o, mas uma parte
antes dele. Seus braços igualmente grandes e moles, assim como seu tronco e seu
rosto. Parecia ter mais membros do que uma pessoa, de fato. Não era uma pessoa,
percebi isso assim que encostei o olho nele. O mais estranho foi, talvez,
deparar-me com a surpresa dele refletida na reação a me ver, tão surpreso
quanto eu fiquei. Seu corpo pareceu perpassado por uma corrente elétrica que o
estremeceu e o fez parar o que estava fazendo. Encaramo-nos por alguns
segundos, naqueles segundos que todo mundo sabe que são excessivamente longos,
mas que, por incrível que pareça – talvez seja o fato mais triste neles –,
passam.
E passaram.
A criatura pareceu mais mole do que o de costume, de uma
estrutura quase coloidal. Seu corpo esticou-se mais e mais, a ponto de
tornar-se uma gosma uniforme e preta que se estendia por metade da cozinha. Num
jato de agonia – acompanhado de um grito agudo – adentrou por minha goela
abaixo. Todo aquele monstro de dois metros e pouco, um enorme monte de pudim
preto, uma caixa d’água repleta de lama barrenta ou uma fossa entupida de
bosta, tudo penetrando em minha garganta num processo derivado do vômito, mas ao
contrário. Não sei o motivo, mas lembrei de quando era criança. Um mal estar
assombroso apossou-se do meu corpo.
Voltei pra cama. Nunca mais tive ereção ou ânimo para
qualquer coisa. Só lembro que, no momento que ele adentrava, seu chiado fino fez
algum sentido em meu cérebro, e ele dizia: você nunca mais vai ser feliz. Serei
sua sombra, ao seu lado enquanto caminha por entre o mundo, vagabundando em
busca do que quer que seja. Não sentirá vontade de trabalhar, ou de ter uma
garota, ou mesmo de se alimentar. Não que seu desejo não exista mais. Eu simplesmente
vou devorá-lo todo, enxugarei isso que pra mim é alimento até que morra.
Ele não voltou a falar comigo, por isso achei que pudesse
estar louco, ou que tivesse tudo sido um sonho. Tantos anos depois, às vezes
paro pra pensar se tudo isso não foi só uma desculpa para que pudesse me tornar
o inválido que sou hoje. Mas pensar nessas coisas dói tanto!
segunda-feira, 21 de janeiro de 2013
Falta
Eis-me no mais profundo desencanto.
Lamento num canto,
cantando baixinho o meu descontentamento.
Qual enquanto o que queria, aguento.
Parafraseando quem quer que cante
(ou mesmo até quem não cante, tanto faz)
articulo a esmo a ausência que se fez atroz,
usufruindo do único grito que o eu lírico conclama:
Fodeu!
sexta-feira, 18 de janeiro de 2013
Fortuito desprazer
E vi deus e o diabo colidindo-se no céu em um combate de bilhões de anos.
Eu vi uma multidão de pecadores decepando-se em oferenda ao apocalipse.
Eu vi mães atirando os seus bebês embaixo de velozes mercedes, que passavam espirrando sangue em todos que estavam perto.
Eu vi anjos fazendo cirurgia de troca de sexo e tatuando trechos da bíblia, contornados por alguma porcaria tribal (ou algo semelhante a isso).
Eu vi canções serem escutadas por pessoas que morriam só em ouvir os primeiros versos sendo proferidos.
Eu vi mulheres que gozavam ouro no formato de fetos abortados.
Eu vi tentáculos brandirem para o céu como espadas em combate, enquanto enormes receptáculos hipocondríacos tentavam abocanhá-los.
Eu vi megalomaníacos prometendo um pouco do esperma divino em troca de ilhas caribenhas que nem existiam mais.
Eu vi o céu se rasgando em quatrocentas mil fatias, regurgitando para dentro da Terra todo tipo de animosidade extraterrestre.
Eu vi a humanidade em desespero, boiando num oceano de lágrimas aflitas, certas do fim do mundo, mas sem aceitá-lo.
Morri, assim como todos os mortais, sem saber o fim.
Que inferno!
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