sábado, 7 de abril de 2012

Auto-mutilação


As coisas que confabulo
Cedo ou tarde irão me confabular
Cuspindo no antro da minha arrogância
Que esquarteja o escroto dos meus versos

Que, velho, almejo a vertente mais ambígua
Que é a ânsia daquele que não mais anseia
Antes de qualquer era onipresente deste plano
Que velho almejaria a vertente que não anseia?

Por aquele que um dia eu era (latente)
Não obstante espera dentro do meu peito
O gozo do corte feio novamente

Pois como sobreviver a essa sanidade ausente
Se peito de forma alguma pensa
E cérebro de forma alguma sente?



domingo, 1 de abril de 2012

Épico do amargo errante



O amargo errante delgado com suas botas
Enquanto o sol se punha, colorindo sua porta
Os planetas giravam e a música não parava
Enquanto sua mãe de todos se afastava

Durantes as noites ela dizia: viva seu destino
Para o pequeno, enquanto dormia, o pobrezinho
Sonhando um dia poder ser como Marlon Brando
Mas num dragão, com menos máfia e contrabando

Compunha nas folgas canções para surdos
Sua mãe lhe castigava, achando um absurdo
Devia ser como um Deus, bondoso e cruel
Governando um planeta, igual sua prima Isabel

“Ou então um mutante”, era o sonho da velha
Uma vaca de duas cabeças sedenta na relva
Entretanto, tossia e vomitava o tapete
A doença atacava, como a fome e a sede

“É a peste”, diz o médico, de jaleco e arrogância
“Precisa da pedra de bosta da Tailândia
Se dentro de dois dias não à fizer ingerir
O sangue jorrará, e ela deixará de existir!”

O errante não sabia, nem podia algo fazer
Era muito pequeno, e de tanto medo ter
Sentia que seus esforços seriam em vão
Enquanto sua mãe sufocava na solidão

Subiu ao seu quarto, no vigésimo andar
Juntou a mobília, formando um altar
Enquanto em lágrimas puxava sua genitora
Gritou como um porco a fala ensurdecedora:

“Enquanto aqui esteve, seu servo para tudo fui
Cortei-me a jugular, suguei para dentro o pus
E agora me vejo ao réquiem, derrubado em lágrimas
Mas de alegria, vá para o inferno, e que o diabo lhe parta!”

Seu ódio fez uma sombra, que consumiu todo o resto
Sua mãe foi levada para os confins do inferno
Enquanto gargalhava. Agora era livre!
E apreciava seu mais novo truque, uma sombra bem fixe

Despejou o medo ao redor do mundo
Aos poucos foi ficando amargo e moribundo
Casou-se com uma moça, medrosa e submissa
Que apanhava de chicote enquanto o errante ria

Num instante, algo muito estranho aconteceu
Sentiu que nada que vivia era realmente seu
Um vórtice no céu sugou tudo à sua volta
Até mesmo o sol, que iluminava a sua porta

Acordaste do sonho, suado e arfando
Não havia nenhuma sombra matando ou lhe esperando
Nem pedras ou médicos chatos dando ordens
Apenas um vácuo para todos aqueles que dormem

Vivia no fim do mundo, onde o sol se deita
Ali ninguém interage, ou algum sonho almeja
Avalie amar, sonhar ou agir diferente
Todos seguiam o rumo da vida corrente!

Respirou fundo e sentiu seu destino
Vivia preso ali desde que era um menino
Devia perecer, sem sentir fome nem sono
Apenas sonhar que sentia, no mais completo abandono

Enquanto pensava, tristemente o sol se punha
Os planetas giravam conforme a música
O drama do menino era um eco distante
De um aglomerado de células num universo gigante

Triste era a sina do amargo errante!




terça-feira, 20 de março de 2012

Ode às sombras N°3


A SOMBRA me persegue dia e noite. Buscando em mim aquilo que nunca vou encontrar e imortalizando a minha ânsia de querer de todas as maneiras me livrar dela, acabo me aproximando do abismo cada vez mais

A SOMBRA vem para todos cedo ou tarde. Embora até hoje jamais tendo-se provado a sua existência, bate no peito de toda a humanidade o medo do instante em que  ela cruzará com o seu destino. Quando a sua  sombra  nunca mais será sombra.

A  SOMBRA  vem e vai, como a maré. E dizem ter visto a terra das SOMBRAS, onde dezenas de milhares se apertam à dançar despudoradamente a dança da morte. Que mesmo sem jamais poder ver o rosto de tal criatura, ali imagina-se um sorriso.

A  SOMBRA  espera de tocaia, aguardando a hora certa. Os mais céticos dizem que ela não existe e que, na verdade, ela só está na nossa cabeça. Torturando, amedrontando, esperando que o medo nos consuma para poder deixar de existir.

O efeito é o mesmo.

sexta-feira, 16 de março de 2012

Paradoxo inconveniente



Todo o pecado que houver nesse mundo
Poderia ele de alguma forma te tocar?
Querendo eu que toque, mas lentamente
Tão de leve que não deixe que perceba a pequena coisa
Escondida em um buraco negro de endereço desconhecido

Todo o lixo que houver nesse mundo
Trato de regurgitá-lo da forma que me apetece
Mesmo sabendo que nem sempre agrada ao olhos
Meus corpos
Aglomeram-se embaixo da cama tornando-se um estorvo
Até para mim

Toda a merda que houver nesse mundo
Isso seria capaz de te tornar mais inteligente?
Vejo-me lambuzado com a minha própria melancolia,
Que insisto achar parecida com alguma coisa útil para alguém que não seja
Eu.

Tudo de vazio que houver nesse mundo
...
Tudo de vazio que houver nesse mundo talvez sirva como
Obstáculo, como um escudo que me esconde do resto do universo
E que põe a mão no meu ombro, dizendo: “você está fazendo certo”
Enquanto que com a outra mão enforca o meu pescoço

Vejo o esboço de toda a minha trajetória
E a única coisa que consigo pensar agora é:
Um dia isso terá volta?



sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Ode às sombras N°2

Qual o som que a morte faz?
Qual o som que a vida faz?
Ainda espero a sua voz
E o seu exército, feito de medo
Algoz da esperança

Tornas-te a razão de tudo isso
O tabu que me excita
O fantasma que me acalenta
O tremor embaraçoso no canto da boca
O espaço que nos preenche

[Mas o meu maior medo é vê-lo, com os seus iguais, num descampado à lua cheia, vindo me buscar]

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Ode às sombras N°1



E se espalham...
Feito centenas de milhares de ondas sonoras
E como se fossem Deus...
Falecem

O espaço vazio governa os constructos do paradoxo
Sem deixar sinal de sobreviventes
Psiu! Não contas o fato que desconheces
Sequer a verdade evanesce

“Se me queres, por entre meu ventre precisa descer
Beijar a minha face, comer da minha comida
E obedecer, até que me desfaça
Ainda assim não me reconheçarás

[Tenha-me como amiga
Vista-me com a tua vaidade
Estupra-me de vida e morte
Desgasta-te com o teu torpor]

E ainda assim não saberás
Pois o mistério é insolúvel ao teu olho
Pois até o fim me esfregarei
E até o fim me obedecerás

E antes do fim saberás
Melhor do que qualquer outro
Que só para você eu nasci
E que sou o seu melhor reflexo

Ovo".



  

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Causa Mortis


À carta não lançada,
ao gozo reprimido,
ao grito amordaçado,
à espera concedida,
à lâmina mal-amolada,
ao beijo nunca visto,
ao amor nunca selado,
à morte nunca assistida,
à sorte sempre tardia,
ao desfecho mais que suspeito.

À isto,
a tudo isto,
e a inúmeras outras coisas
[talvez mais numerosas e mais importantes que estas]
dedico o mais inútil dos prêmios solenes que aqui ofereço antes da minha morte.
Pois elas me guiaram e me desguiaram
Tornaram-me e destornaram-me
Fazendo de mim tudo aquilo que jamais poderia ser
Cérebro
Cerebelo
Asco
Uma pilha de revistas em quadrinho
Tempo
Muito tempo
E saudade