quinta-feira, 7 de junho de 2012

O Poeta




O poeta
Por funcionar à base de lábios
Dispõe de um leque inigualável de agrados

Os lábios
Por funcionarem à base de poemas
Derretem-se à cada voz que o amor amamenta

Mas lábios estes
Amando mais a arte da conquista
Fazem do desencontro um dos seus maiores deleites
E da realidade um poeta saudosista

E o apaixonado
Que na vida só leva a poesia
Desmorona na embriaguez do jogo da amada
Escrevendo mais e mais à cada víscera

Pois o poeta também funciona à tristeza
E ao perceber nesse algoz brutal beleza
Entrega-se de cabeça ao lamento amargo

Refaz todo o seu trágico atestado
Enterra-se abraçado com a amada em um retrato
Desejando jamais ter cometido tal proeza

Mas enquanto prepara o veneno
Na esquina vê passando um lábio desconhecido
E antes que possa ver-se desfalecendo
Torna a viciar-se naquilo que lhe causou o destino

Pois o lábio pro poeta não é mais que um símbolo
Irmão da tristeza, da caneta e do vinho
Que, no fim, servirá como livro de cabeceira
De enfeite no bureau de um burguês mesquinho!

Acordes




Os campos de morango não voltarão jamais
Perdidos na graxa e na engrenagem fria
E a semente enterrada alimentará os animais
Que nada tem a ver com a nossa narrativa

O câncer que se espalhou, necrosando a vida
Afundará mais e mais os nossos sonhos
Calará de vez o poético som da cítara
Tornando os ceticismos cada vez mais medonhos

De tudo, só restará o excedente
Um baque surdo num tambor sem voz
E um grito louco da erva remanescente

Pois os campos foram loteados descentemente
Hospedando um palácio com tijolos de dinheiro
Que só desmoronará quando morrer toda essa gente!

Lobo Negro




Lobo negro
Tu que vives espreitando
Salvaguardado em um bunker
De pedra, carne e osso
Aviso-te tardiamente:
A zona nega o que tu és
E irá te escravizar, roubando
O basta da tua voz
Antes da alvorada
Cria vergonha na tua cara
Estupra o leito que te ronda
À colina, onde a alcateia se esconde
Chô! Chô!

sábado, 7 de abril de 2012

Auto-mutilação


As coisas que confabulo
Cedo ou tarde irão me confabular
Cuspindo no antro da minha arrogância
Que esquarteja o escroto dos meus versos

Que, velho, almejo a vertente mais ambígua
Que é a ânsia daquele que não mais anseia
Antes de qualquer era onipresente deste plano
Que velho almejaria a vertente que não anseia?

Por aquele que um dia eu era (latente)
Não obstante espera dentro do meu peito
O gozo do corte feio novamente

Pois como sobreviver a essa sanidade ausente
Se peito de forma alguma pensa
E cérebro de forma alguma sente?



domingo, 1 de abril de 2012

Épico do amargo errante



O amargo errante delgado com suas botas
Enquanto o sol se punha, colorindo sua porta
Os planetas giravam e a música não parava
Enquanto sua mãe de todos se afastava

Durantes as noites ela dizia: viva seu destino
Para o pequeno, enquanto dormia, o pobrezinho
Sonhando um dia poder ser como Marlon Brando
Mas num dragão, com menos máfia e contrabando

Compunha nas folgas canções para surdos
Sua mãe lhe castigava, achando um absurdo
Devia ser como um Deus, bondoso e cruel
Governando um planeta, igual sua prima Isabel

“Ou então um mutante”, era o sonho da velha
Uma vaca de duas cabeças sedenta na relva
Entretanto, tossia e vomitava o tapete
A doença atacava, como a fome e a sede

“É a peste”, diz o médico, de jaleco e arrogância
“Precisa da pedra de bosta da Tailândia
Se dentro de dois dias não à fizer ingerir
O sangue jorrará, e ela deixará de existir!”

O errante não sabia, nem podia algo fazer
Era muito pequeno, e de tanto medo ter
Sentia que seus esforços seriam em vão
Enquanto sua mãe sufocava na solidão

Subiu ao seu quarto, no vigésimo andar
Juntou a mobília, formando um altar
Enquanto em lágrimas puxava sua genitora
Gritou como um porco a fala ensurdecedora:

“Enquanto aqui esteve, seu servo para tudo fui
Cortei-me a jugular, suguei para dentro o pus
E agora me vejo ao réquiem, derrubado em lágrimas
Mas de alegria, vá para o inferno, e que o diabo lhe parta!”

Seu ódio fez uma sombra, que consumiu todo o resto
Sua mãe foi levada para os confins do inferno
Enquanto gargalhava. Agora era livre!
E apreciava seu mais novo truque, uma sombra bem fixe

Despejou o medo ao redor do mundo
Aos poucos foi ficando amargo e moribundo
Casou-se com uma moça, medrosa e submissa
Que apanhava de chicote enquanto o errante ria

Num instante, algo muito estranho aconteceu
Sentiu que nada que vivia era realmente seu
Um vórtice no céu sugou tudo à sua volta
Até mesmo o sol, que iluminava a sua porta

Acordaste do sonho, suado e arfando
Não havia nenhuma sombra matando ou lhe esperando
Nem pedras ou médicos chatos dando ordens
Apenas um vácuo para todos aqueles que dormem

Vivia no fim do mundo, onde o sol se deita
Ali ninguém interage, ou algum sonho almeja
Avalie amar, sonhar ou agir diferente
Todos seguiam o rumo da vida corrente!

Respirou fundo e sentiu seu destino
Vivia preso ali desde que era um menino
Devia perecer, sem sentir fome nem sono
Apenas sonhar que sentia, no mais completo abandono

Enquanto pensava, tristemente o sol se punha
Os planetas giravam conforme a música
O drama do menino era um eco distante
De um aglomerado de células num universo gigante

Triste era a sina do amargo errante!




terça-feira, 20 de março de 2012

Ode às sombras N°3


A SOMBRA me persegue dia e noite. Buscando em mim aquilo que nunca vou encontrar e imortalizando a minha ânsia de querer de todas as maneiras me livrar dela, acabo me aproximando do abismo cada vez mais

A SOMBRA vem para todos cedo ou tarde. Embora até hoje jamais tendo-se provado a sua existência, bate no peito de toda a humanidade o medo do instante em que  ela cruzará com o seu destino. Quando a sua  sombra  nunca mais será sombra.

A  SOMBRA  vem e vai, como a maré. E dizem ter visto a terra das SOMBRAS, onde dezenas de milhares se apertam à dançar despudoradamente a dança da morte. Que mesmo sem jamais poder ver o rosto de tal criatura, ali imagina-se um sorriso.

A  SOMBRA  espera de tocaia, aguardando a hora certa. Os mais céticos dizem que ela não existe e que, na verdade, ela só está na nossa cabeça. Torturando, amedrontando, esperando que o medo nos consuma para poder deixar de existir.

O efeito é o mesmo.

sexta-feira, 16 de março de 2012

Paradoxo inconveniente



Todo o pecado que houver nesse mundo
Poderia ele de alguma forma te tocar?
Querendo eu que toque, mas lentamente
Tão de leve que não deixe que perceba a pequena coisa
Escondida em um buraco negro de endereço desconhecido

Todo o lixo que houver nesse mundo
Trato de regurgitá-lo da forma que me apetece
Mesmo sabendo que nem sempre agrada ao olhos
Meus corpos
Aglomeram-se embaixo da cama tornando-se um estorvo
Até para mim

Toda a merda que houver nesse mundo
Isso seria capaz de te tornar mais inteligente?
Vejo-me lambuzado com a minha própria melancolia,
Que insisto achar parecida com alguma coisa útil para alguém que não seja
Eu.

Tudo de vazio que houver nesse mundo
...
Tudo de vazio que houver nesse mundo talvez sirva como
Obstáculo, como um escudo que me esconde do resto do universo
E que põe a mão no meu ombro, dizendo: “você está fazendo certo”
Enquanto que com a outra mão enforca o meu pescoço

Vejo o esboço de toda a minha trajetória
E a única coisa que consigo pensar agora é:
Um dia isso terá volta?